A conversa entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, nesta segunda-feira (26), demonstra que as duras críticas do brasileiro ao americano nos últimos dias não interromperam a aproximação.
Em discursos em tom de comício, Lula chamou de “desrespeito” a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e acusou Trump de querer ser “dono da ONU” por causa da criação do Conselho de Paz.
Trump ou não ficou sabendo ou decidiu ignorar as críticas. Lula adotou uma linguagem muito mais branda ao falar com o presidente americano.
Em vez de condenar as iniciativas de Trump, ele se limitou a fazer sugestões e ponderações: que o Conselho se limite às questões humanitárias da Faixa de Gaza e inclua a Autoridade Palestina; e sobre a importância de trabalhar pelo bem-estar dos venezuelanos, algo que certamente Trump não rejeitaria.
Negociação entre EUA e BrasilLula procurou aproveitar a conversa telefônica de 50 minutos para pleitear a retirada das tarifas adicionais que ainda vigoram sobre 65% das exportações brasileiras para os EUA, incluindo os produtos de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos.
Em contrapartida, o presidente brasileiro também pediu que o governo americano aperte os controles sobre o fluxo de dinheiro do crime organizado no sistema financeiro – um tema que ele sabe ser do agrado de Trump e que compensa o fato de o Brasil não ceder às pressões de Washington para classificar esses grupos como “narcoterroristas”.
Trump gosta de negociar, de se apresentar ao eleitorado americano como um líder que consegue arrancar concessões de adversários e de pessoas ideologicamente divergentes.
Afinal, essas concessões valem mais quando são obtidas de líderes com esse perfil do que de aliados.
Assim, o perfil de negociador de Lula agrada a Trump. O presidente americano está disposto a relevar discursos agressivos para o público interno, até porque ele também faz isso. Desde que Lula continue suavizando o tom e demonstrando disposição de negociar.
Entretanto, há um risco nessas condenações muito hostis de Lula.
Se elas repercutem no movimento Faça a América Grande de Novo, liderado por Trump, podem constranger o presidente americano a elevar a pressão sobre o brasileiro. Isso pode até beneficiar Lula eleitoralmente, mas prejudicar setores produtivos do Brasil.